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BLOG DO MENEZES
 


O GRANDE MAESTRO DA MÚSICA POP

Final

 

Houve um tempo, e isso durou anos, que não saía de casa sem um disco, cassete ou CD (dependendo da época) de Burt Bacharach. Sempre achei que era a melhor música para esquentar um encontro com estilo, uma reunião de amigos, um jantar chato ou uma boa festa. E sempre funcionou muito bem. Quando tudo começava a acontecer e as pessoas já estavam devidamente ambientadas, apresentadas, alegres e descontraídas, quando nem se lembravam mais da música, vinham as perguntas: o que é que estava tocando ? quem é esse cara ? que música é essa ? Genial. Muito bom. Perfeito. Que delícia. Quem ? A resposta era ensaiada, rápida e apaixonada: Burt Bacharach, segundos antes de outra música começar - jazz, rock, dance, reggae; flash back; disco; punk; valsa; anos 80 ou eletrônica. A resposta era sempre a mesma: Burt Bacharach. Todo mundo gostava do maestro, mesmo sem conhecê-lo. Tinha pelo menos uma música que alguém conhecia, quando ainda estavam sãos e sóbrios. Isso é música pop. 

 

O maestro, que também canta em alguns de seus discos, como no clássico Make it easy on yourself, de 1969, era quase uma unanimidade, e não a burra de Nelson Rodrigues. O clichê é previsível e abominável, mas não no caso de Burt Bacharach. Basicamente, sempre foi um homem da indústria, mas usou a sua formação em arranjo, composição e regência, o conhecimento pleno da orquestra e do estúdio para fazer a sua música. Não estava, necessariamente, preocupado em fazer sucesso, queria criar, entreter e impor a sua marca.

 

Burt Bacharach criou uma assinatura musical e um estilo mimético de fazer música. Sua obra é só aparentemente fácil e simples. Ouvindo o maestro e olhando com atenção algumas de suas partituras, percebe-se o uso constante de progressões harmônicas sofisticadas sobre acordes pouco usuais na música pop, frases irregulares e modulações freqüentes - a bitonalidade que aprendeu com Milhaud. Já no início, percebe-se o famoso som de Bacharach, distinto pelo uso das cordas da orquestra, a percussão, os vocais femininos e, é claro, o flugelhorn, talvez sua marca mais característica. Tudo isso, poderia levá-lo a se estabelecer comodamente numa das salas do Brill Building, nas paradas de sucesso, na Broadway e no cinema fazendo música pop de qualidade.

 

 

A incrível personalidade musical do maestro está eternizada em vários momentos antológicos no cinema: as trilhas de What's New Pussycat ?, Alfie, Casino Royale, Butch Cassidy and the Sundance Kid, Lost Horizon ou Arthur, um milionário sedutor. Impossível esquecer B.J.Thomas cantando Raindrops keep fallin' on my head na cena da bicicleta em Butch Cassidy. E Dusty Springfield e Look of love em Cassino Royale, a multidão cantando Living together, growing together em pleno Xangrilá em Horizonte Perdido, ou Cillia Black em Alfie e Tom Jones em What’s new pussycat.

 

 

 

Johnny Mathis, Herb Alpert e Perry Como, entre tantos outros, gravaram a boa música pop escrita por Burt Bacharach e Hal David. Mas a influência da dupla se estende ao rock sessentista, ao soul, passa pelo britpop e chega até os dias de hoje. A onda atual do pop retrô do She & Him, do magnífico Brent Cash,de Adelle ou The Pipettes deve tudo a Bacharach e David. O excelente projeto paralelo (e retrô) de Alex Turner (Arctic Monkeys), The Last Shadow Puppets, regravou magistralmente My little red book; que já tinha uma versão dos Manfred Mann, de 65. Junto com os Beatles e os Mann, o maestro também participou da invasão britânica. Ao mesmo tempo, era influência confessa da reação americana aos ingleses. Outro gênio, Brian Wilson, cansou de dizer que o som dos Beach Boys foi profundamente influenciado pelo maestro. O brilhante Steely Dan, já na década dos 70, também reconhece a presença de Bacharach na sua peculiar fusão do rock com o jazz.

 

Assim como o rock, o pop negro sempre gostou de Burt Bacharach, que foi gravado pelos Drifters, as Shirelles, Chuck Jackson, Jerry Butler, Brook Benton, Luther Vandross etc. Sem contar Dionne, Aretha, o 5th Dimension e a antológica versão de Walk on by de Isaac Hayes, uma suíte orquestral com mais de doze minutos presente no indispensável Hot Buttered Soul, de 69.

 

O Oasis, quem diria, também é fã confesso de Burt Bacharach. Lembre-se que tem um poster do maestro ao lado do sofá em que Noel Gallagher está sentado na capa do primeiro CD da banda, Definitely Maybe, de 94, o disco que fez estourar o brit pop. Gallagher já tocou com ele e reconhece que pegou trechos de This guy’s in love with you para fazer Half the world away, que está em The Masterplan, de 98. Também são dos anos 90 os dois CDs que o maestro fez com Elvis Costello, o irrepreensível Painted From Memory e The Sweetest Punch, além de um disco de McCoy Tyner só com músicas do maestro. Tyner foi o pianista do grande quarteto do saxofonista John Coltrane. Mais recentemente, Burt Bacharach trabalhou com Dr. Dre, um dos maiores produtores do rap americano, que fez parte do N.W.A (Niggaz With Attitude).

 

 

É incrível mas não é tudo. Tem Grammies, Oscars e tudo que Burt Bacharach sempre mereceu por entrar macia e educadamente em nossa memória e não sair mais. A propósito, quase ia me esquecendo, tem ainda (They long to be) Close to you, com os Carpenters. Impossível não lembrar.

 

Bom show a todos que vão e podem pagar o preço do ingresso. Desejem o melhor ao maestro por mim. Termino a minha homenagem ao gênio com outra de suas obras-primas: B.J. Thomas e Raindrops keep fallin' on my head, a canção perfeita.

 

 

Quem quiser saber mais sobre Burt Bacharach tem um site não oficial bem bacana, com um fórum de discussões, biografia completíssima, discografia, letras e acordes de algumas de suas músicas e muito mais. Recomendo.

 

http://bacharachonline.com

 

 



Escrito por sergio menezes às 17h39
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O GRANDE MAESTRO DA MÚSICA POP

Primeira parte

 

É impossível pensar em alguém como Burt Bacharach. Ele só não aparece na capa paideuma, como diria Pound, de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band. Puro esquecimento dos rapazes ou do capista, já que os Beatles já haviam gravado uma composição do maestro, Baby it’s you, no seu segundo disco oficial, Please Please Me.

 

 

Difícil acreditar que Burt Bacharach, tido como um dos grandes da chamada easy listening, estilo musical que ajudou a difundir caracterizado por arranjos e melodias facilmente assimiláveis, muzak, música de elevador, feita para atingir as paradas radiofônicas, seja comparado a George Gershwin e Irving Berlin, dois dos mais importantes compositores norte-americanos. Berlin compôs White Christmas e Gershwin fez Summertime, para dizer quase nada, dois standards da música pop – invenção tipicamente americana. Bacharach compôs os seus, que se contam às dezenas a partir do final dos anos 50: This guy’s in love with you; The look of love; I’ll never fall in love again; Alfie; Make it easy on yourself; Promises, promises; I say a little prayer; Wives and lovers e tantos outros.

 

 

 

O mesmo compositor, maestro, arranjador e produtor, que penetrava fácil no som ambiente de consultórios, shoppings, elevadores e no diário da mocinha que começava a escolher as músicas para a sua formatura, estudou violoncelo, bateria e piano. É muito para quem nasceu em Kansas City, cidade que se repete em vários estados americanos, mas sempre fundada no interior, no mundo caipira da cidade pequena que sonha com a metrópole. Uma dessas cidades, no Missouri, levou Burt Bacharach direto para a Califórnia, onde estudou composição com Darius Milhaud e Henry Cowell, artífices da vanguarda musical do início do século passado.  

Milhaud, que também viveu no Brasil, foi um dos membros do anárquico Les Six, grupo francês que tinha também outro compositor, Erik Satie, e um protótipo do que é hoje um artista multimídia, Jean Cocteau. Milhaud foi um dos primeiros compositores a usar a bitonalidade, além de incorporar o jazz e a música latina (do Brasil inclusive) em suas composições. Saudades do Brasil (1921) e A Criação do mundo (23) são obrigatórias para entender o desenvolvimento da música sinfônica de invenção no século XX. Os encontros de Bacharach com seus primeiros mestres foram decisivos na música do maestro, como se pode ouvir em várias de suas composições. Do you know the way to San Jose, com Dionne Warwick, a sua grande intérprete, é um bom exemplo.

 

Por mais incoerente que possa parecer, mas de acordo com os estudos e a trajetória do início daquele aspirante caipira a músico e maestro, Burt Bacharach foi o arranjador e condutor de uma excursão de Marlene Dietrich na Europa no final dos 50. Na volta a América, conhece seu grande parceiro, Hal David, compositor e letrista, e juntos tomam conta do famoso Edifício Brill em Nova Iorque, que concentrava grande parte da produção da música popular que atingiu a parada americana dos anos 50 em diante, pelo menos até os 60. No formato Brill Building, em salas diferentes, selos, compositores, editores, arranjadores, maestros, cantores, publicitários, músicos, produtores e agentes tentavam adivinhar qual seria o próximo número 1 da América. Burt Bacharach e Hal David esgotaram e ampliaram o formato, emplacando hits sucessivos e alimentando rádios, a indústria do disco, a Broadway, o cinema e as paradas do mundo todo, especialmente nos anos 60 e 70. Até 2006, Bacharach e seu parceiro mais constante colocaram 70 músicas no Top 40 americano e 52 no Top 40 britânico.

 

No próximo sábado, Burt Bacharach vai se apresentar em Curitiba, no Teatro Positivo Grande Auditório. Uma pena que um artista tão importante e popular tenha que ser visto com ingressos tão caros: 404 reais a inteira e 204 a meia. Os preços são escorchantes – e intrigam aqueles quatro reais, nunca vi disso.

Parece comissão e não um cálculo real do custo do espetáculo, mas é só a hipótese de um fã indignado. Infelizmente, não estarei lá, por isso resolvi prestar minha homenagem ao maestro aqui no blog.

 

Por enquanto, fiquem com Aretha Franklin no auge (1970) e uma das grandes músicas do maior maestro da música pop. Daqui a pouco tem mais.

 

 

 



Escrito por sergio menezes às 00h15
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